terça-feira, 23 de dezembro de 2008

sou do mundo, não sou minas gerais.


Não escolhemos onde nascemos. A vida nos impõe isso. Digo sempre, brincando, que nasci em BH por um erro de rota. Quando do barro fui moldado, o Criador entregou a missão de me transportar, até ao meu ponto de partida, a uma cegonha novata que acabara de tirar o brevê. Objetivo da ave: deixar a encomenda humana em qualquer dessas vilazinhas com telhados em pronunciado circunflexo numa paisagem digna de quebra-cabeças, bem européia. Pretensão minha? Não, de jeito nenhum! É só parte do meu enredo tragicômico... Mas, como ia dizendo, não importava onde ficasse a tal vilazinha: alpes bávaros, Cárpatos, ou no distante Cáucaso. O menino tinha de ser entregue, e ponto! O problema é que a anta, digo, cegonha, não sabia usar a bússola que levava consigo, quanto menos o GPS que lhe foi entregue; tal como aquele padre voador do Paraná. O fato é que o bicho errou grosseiramente o caminho e, em meio ao mau tempo, viu abaixo, num clarão entre as nuvens, uma região ondulada cheia de montanhas e resolveu, por conta própria, sem mesmo verificar o seu plano de vôo ou comunicar a base, que finalmente chegara ao seu destino. E ali mesmo ela me largou, como uma bomba... Ah, cegonha dos infernos! E, assim, me transformei em mineiro; por infortúnio. A verdade dessa história é que aprendi, ao longo do tempo, a detestar montanhas e terra vermelha. Nasci e vivo em um Estado de gente atrasada e canhestra. De gente que parou no tempo e que insiste em não avançar proferindo, em uma ladainha interminável, o velho discurso da tradição mineira que ressoa insistentemente pelos seculares casarões das cidades históricas entregues ao mofo. Por falar nisso, este é exatamente o cheiro que toma conta do ar deste lugar: o cheiro de mofo. O odor de um povo que continua a plantar e a colher, com perplexa alegria, um sentimento chamado "mineiridade" sem saber o quanto mal isto faz à alma e à mente. O que vem a ser "mineiridade", afinal? É, por acaso, habitar eternamente entre montanhas fumando um cigarro de palha na porta da casa? Ou assistir simplesmente a vida passar, incólume, debruçado sobre o parapeito de uma janela? É encarar o novo como uma ameaça à vida pacata, como se quem chegasse "de fora" fosse um extraterrestre? É se fechar, taciturno, e olhar tudo em volta com desconfiança? É continuar a viver na crendice, na beatice, na mesmice, na burrice? É se mascarar de hospitaleiro com o intuito de descobrir as mazelas alheias? É falar "uai", "trem" e se portar tal e qual o jeca de Mazzaropi? É investir na criação e manutenção de seres políticos que só desabonam a sua terra natal? É acreditar, como naquela canção famosa, que o nosso mundo é Minas Gerais? Perdoem-me, mas meu mundo é muito mais do que isto aqui. Ele não termina nas divisas deste Estado. Meu mundo é aplainado, sem serras que me impedem de enxergar além. Gostaria mesmo de ter nascido à beira-mar, com o horizonte inteiro se desfraldando diante dos meus olhos; aberto. Sem dúvida, isto teria feito de mim uma pessoa bem melhor: mais sagaz, mais viva, mais feliz. Quantas vezes precisei subir a maldita montanha de tradições estúpidas para poder ver o novo... E foram várias! Este aqui é o meu manifesto pela liberdade. Liberdade que tanto se fala em Minas e que está lá bordada em sua bandeira: palavras desconexas, sem significado prático. Quero, um dia, fazer o mesmo que Drummond, Sabino, Ziraldo, dentre tantos outros mineiros que resolveram abdicar do mofo e abrir a alma para o mundo, longe das fantasmagóricas montanhas de pedra e da terra que teima em impregnar tudo. Sou do mundo, não sou Minas Gerais.

Um comentário:

  1. Considero a minha história pior ainda.

    Bom, a cegonha imcumbida de me deixar em meu destino era uma eximia voadora, encontrou céu limpo e ótimas condições de vôo (ops... voo - nova regra ortográfica), seu GPS estava em perfeito estado e diferente de certos padres, sabia como operá-lo com excelência.

    Como se não fosse o bastante, o lugar onde deveria me deixar ainda era maravilhoso, pra ser mais exato, a cidade maravilhosa.

    Vocês devem estar se perguntanto: como alguém que somava tantas benesses pode achar trágica a sua história?

    Pois é agora que tudo começa.
    Quando tinha 5 anos de idade, meu pai trabalhava em uma empresa. Esta, precisava de um representante em Minas Gerais.

    (Agora já da para imaginar o meu infortúnio).

    Fui arrastado pra Pedro Leopoldo, cidadizinha do interior, perto de Belo Horizonte, e pra piorar, não passados muitos anos, meu pai se desligou da empresa responsável pela nossa mudança (diga-se de passagem que esta empresa, ao que me recordo, já está falida) e NÃO quis voltar.

    Várias vezes alimentei o sonho de morar com munha avó, mas sempre frustrado. Hoje, ainda moro aqui, mas anseio pelo dia em que sairei de trás das montanhas e viverei a minha liberdade.

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