
Quando o Oasis surgiu no cenário musical inglês, em 1994, - em plena ebulição do Britpop - muita gente torceu o nariz, não por causa do som ou das composições que eles faziam, mas pela postura que os caras adotavam. Conheço gente que tomou total antipatia da banda sem mesmo ter ouvido uma única de suas músicas. E esta repulsa, até mesmo dos críticos de então, se deveu à pretensa arrogância dos irmãos Gallagher. Noel e Liam promoviam, quem sabe gratuitamente, inúmeras tiradas estrondosas e disparavam suas línguas ferinas para todos os lados. Se autointitulavam a melhor banda do mundo, atrás apenas dos Beatles; detonavam publicamente outras bandas e músicos, como o Blur e Phil Collins; aprontavam altas quebradeiras em aviões e hotéis; fora as várias brigas e discussões dos irmãos, cancelando até mesmo turnês. A discussão se tudo isso era marketing ou não fica à parte aqui. Após mais de 10 anos de estrada, muita coisa mudou no Oasis. Integrantes saíram e outros entraram, um ou dois álbuns foram desastrosos, e chegou-se mesmo a cogitar, no mainstream, que os caras iriam largar tudo e seguir carreiras solo. Isto, de fato, acabou acontecendo... Mas o importante nisso tudo foi a natural evolução das coisas. Os irmãos foram ficando mais velhos e passaram a entender, consciente ou inconscientemente, que a época da infantilidade tinha passado em suas vidas. Não que eles deixaram de lado o fato de se acharem como melhor banda, mas o nível de "arrogância" despencou. Quem acompanhou de perto o Oasis sabe bem disso. É inegável que um dos motivos seja a paternidade de Liam. Após três filhos, o cara passou a ver a vida com outros olhos e a agir diferente. Tornou-se, inclusive, melhor letrista e compositor. E o Oasis, sem dúvida, voltou a apresentar bons trabalhos. Se na música isso acontece, em outras áreas também. No futebol, por exemplo. O Diego Tardelli de hoje - atacante do Atlético Mineiro, homem casado e pai de família - não é o mesmo de quando explodiu no São Paulo. Já talentoso à época, mas cheio de si, aprontava confusões e era indisciplinado. Chegou-se mesmo a pensar sobre o fim de sua carreira. Mas daí veio o Senhor Tempo, e os bons conselhos de alguns com a cabeça no lugar, e o cara se refez. Passou a jogar com seriedade utilizando seu talento para chegar à seleção. Como se percebe, talento e presunção (ou talento e arrogância) muitas vezes não levam a bons resultados. Na verdade, deveriam ceder lugar ao emprego do talento em conjunção com a humildade. Não a humildade no sentido pejorativo: igual à subserviência. Não se trata disso. Mas saber utilizar o talento para um ganho estratégico maior, em benefício próprio e dos outros; sim, dos outros, por que não? Infelizmente, há pessoas talentosas que se consideram estrelas em razão do sucesso alcançado, que têm o rei na barriga, que "cantam de galo", que julgam que todo mundo tem de pensar e agir como elas. Não admitem opiniões contrárias e acabam por tratar quem os repele como seres de menor valor, bem abaixo de si mesmas. É triste de se ver... Mais cedo ou mais tarde - é batata - o sujeito passa a entender que tudo isso é uma tremenda de uma bobagem. Ou então, continua a insistir no erro e dá com os burros n'água. Uma vez, li um ditado que dizia: "todo homem que é sério leva a vida dando murro, só mesmo no cemitério é que deixa de ser burro". É não é que é verdade? Conheci uns caras que se achavam os tais e que ninguém lembra mais deles depois que se foram desta para melhor (ou para pior, sei lá). A história está repleta de casos assim. Gente que, no final das contas, levou tombos homéricos; despreparada para o sucesso, para lidar com seu próprio talento. É aquela velha história: quanto mais você sobe, pior é a queda. Que o diga Ícaro (personagem mitológico grego), filho de Dédalo, que ao voar se sentiu um Deus, poderoso, e deslumbrado rumou em direção ao sol que derreteu a cera de suas asas. O resultado? Bem, você sabe. Des-lum-bra-dos. Essa é a expressão correta que retrata bem o jeito de ser dessas pessoas. No frigir dos ovos, e para a infelicidade delas, o fato é que somos todos poeiras estelares: não valemos nada sozinhos no cosmos. Valemos, sim, quando nos unimos e nos tornamos rocha. A arrogância está caindo de moda; se é que, em algum dia, esteve em moda. Tenho pena das "mangabas" que se julgam maduras, que caem e se esborracham no chão. Por infortúnio, quantos de nós convivemos com pessoas assim? Os senhores da verdade... O segredo é esperar que o tempo faça o seu trabalho. E ele fará. Como diria aquela passagem bíblica: há tempo para tudo. Procuro viver minha vida sem precisar pisar em alguém, ou me achar mais ou menos importante que fulano ou beltrano; sempre respeitando a opinião alheia, mas sem deixar de expressar o que eu penso, o meu ponto de vista sobre as coisas. A sabedoria é entender que tudo é passageiro, mutável. Uma hora você está por cima, outra você está por baixo, independente se seu talento é mais ou menos explorado. Sim, porque todos temos talento. É algo natural. Portanto, não se trata de uma divindade oferecida a alguns poucos e escolhidos (sortudos) mortais. É por essas e outras que eu detesto "estrelinhas", porque elas são a antítese de tudo isso, vivendo em um mundo egocêntrico. Faço minhas as palavras de minha avó: lugar de estrela, meu caro, é no céu.
Fala parceiro. Este texto é definitivamente maravilhoso. Humor, razão, raiva, agonia... tudo misturado na dose exata. Já havia um bom tempo que não acessava nenhum blog e foi através deste texto que voltei a escrever. Obrigado pela receptividade. Abraços.
ResponderExcluirÍcaro Vieira